Hoje foi demais! Extrapolaram. Abusaram do direito de desleixar Escrachar Esculhambar.
Aos fatos.
Os que me aturam na IM são poucos mas certamente compartilham uma mesma indignação que vem desde os primeiros usos de editores de texto na propaganda e nas publicações tupiniquins. Antes deles, publicitários e jornalistas só tinham seus textos publicados depois de completamente “revisados”, o que significava corrigido, alterado e, no caso dos jornalistas, reduzido ao tamanho de sua insignificância, digo, à importância dada pelo editor. Graças a essas, digamos, interferências, as coisas nem sempre acabavam em pizza entre o autor e o revisor. Mas se a notícia saía truncada, o português saía ileso. E se o anúncio perdia a hora, o cliente protegia a imagem de marca de seu produto ou empresa evitando que uma vírgula mal colocada acabasse com todos os seus dispendiosos esforços de comunicação.
Eis que surgiram os words, os page makers e similares. Tudo ficou muito rápido. Muito fácil. E o corretor ortográfico trouxe o fim de todas as dúvidas. Que privilégio possuir um editor de texto com corretor ortográfico! Ou será previlégio. Ôps! O corretor sublinhou. É privilégio mesmo. Que gracinha!
Tudo muito rápido eu disse? Pois é aí que a coisa começou a pegar. Fomos deixando pra depois. Pra depois... E agora que só falta meia hora para o fechamento da edição? “Xá comigo!” Editor de texto na tela, criatividade na cabeça e corretor ortográfico na ponta do mouse e o “serviço” está feito. É só dar “send” para o software de diagramação.
Revisor? Que revisor? Espécie extinta. Nem o IBAMA tem notícia. Quem precisa de revisor se temos nossos softwares maravilhosos? Maravilhosos em quê se a divisão silábica perdeu totalmente a elegância? Nos jornais, graças à reduzida largura das colunas, palavras que no original estão em duas linhas como “compro-“ “metimento”, ficam em uma linha só: “compro-metimento”. E a hifenização de “cor-“ “religionário” passou a ser “co-“ “rreligionário”.
Virou padrão em todas as publicações, umas mais outras menos, a falta de cuidado com o texto editado. Se o fulano que escreveu não revisou, azar o dele. Se o software de edição tem bugs aos borbotões (gostaram? tô ficando velho!), azar de todos nós.
Até pouco tempo, no Caderno de Propaganda & Marketing, encontrava regularmente o seguinte tipo de “ocorrência”: “Devo a minha Änaturalidade? a palavra escrita.” E o autor deve à falta de revisor o comprometimento da qualidade do seu trabalho.
Mas hoje, foi demais. No Propaganda & Marketing, uma nova regra de hifenização:
“O material é leve e difer-
ente dos quadros com (...)”
E, em um comunicado assinado pelo grupo Clear Channel publicado no Meio & Mensagem, bem abaixo do editorial, uma nova proposta morfológica: “A Clear Channel Outdoor, uma diviso da Clear Channel Comunications Inc. a maior empresa de publicidade exterior do mundo -, est iniciando suas operaes em So Paulo atrvs da associao com um...” e assim foi até o final do texto.
É por essas e tantas outras que encontramos diariamente em todas as publicações, que eu vos convido a um brinde. Um brinde à volta dos revisores. Estou com saudade do tempo em que ficava puto por ele ter mudado o sutil sentido de minha frase em respeito a uma bobagem lingüistica qualquer. Bons tempos!
Tim-tim. Vida longa aos revisores!
Paulo Vogel
P.S.: Este texto está sendo publicado sem a interferência de um revisor. |
