Começo a escrever quando o povo ainda está indo às urnas para um sim ou não. Sem conhecer o resultado, me ponho a registrar minhas reflexões após a dialética pública destes últimos trinta dias.

Sou a favor de plebiscitos. Sou contra este, sobre proibição de venda de armas. Sou parceiro de todos os que vêm na evolução das tecnologias de comunicação ferramentas que forçosamente aumentam o poder de opinião (e influência) de todos os cidadãos, esteja ele vinculado à minoria ou à maioria. Sou contra este plebiscito que não passou de transferência de responsabilidade. Sou a favor da consulta constante ao povo sobre as mais diversas questões através de plebiscito, a exemplo do que ocorre na Suíça. Sou contra este que não passou de omissão política. Sou a favor de plebiscitos como um poderosíssimo meio para envolver efetivamente a comunidade (antes da sociedade) na discussão de problemas que afetam ou afetarão a vida cotidiana dos cidadãos, estejam eles, repito, na minoria ou na maioria. Fui a favor deste por este único aspecto.

Por menos que tenhamos nos envolvido, discutimos violência, segurança pública, direito, liberdade, vida,  morte e... comércio e porte de arma. Discutimos nas camas, nas salas, nas cozinhas, nos elevadores; nos ônibus e no metrô, nos bares, nas padarias e no supermercado; no trabalho e em todo canto com todo mundo. Uns começaram sim e terminaram não. Ou vice-versa. Outros, permaneceram convictos no sim, no não e na abstiveram com ou sem justificativa. Quem terá ficado em branco?

O erro fundamental deste plebiscito foi seu caráter não-plebiscitário. Conforme Aurélio, plebiscito, “modernamente, é uma resolução submetida à apreciação do povo”. E não houve qualquer resolução prévia do congresso, a não ser, óbivio, a de empurrar o problema para o tal de "povo". Nossos parlamentares cometeram uma covardia política se eximindo de tomar uma “resolução” e então submetê-la à apreciação. Os políticos não vieram consultar o cidadão, mas lhe transferiram a decisão, ou seja, apurados os votos a proibição estaria em vigor.

Já é segunda-feira. O não venceu “numa virada sensacional”, diria o comentarista esportivo. O debate nos fez avançar da absoluta inconsciência “paz e amor”, à consciência das inúmeras razões da violência urbana, e, principalmente, do que é (ou pelo menos deveria ser) responsabilidade de governo, polícia e justiça. Só isso pode explicar este "não", tão enfático, tão explícito, tão 2/3, cuja conseqüência é nos manter na guerra em que o governo é omisso, o cidadão nada pode mudar, mas onde, pelo menos, podemos continuar a nos defender se for necessário. 

Ao congresso enviamos um telegrama curto, simples, direto: democracia, sim, covardia política, não. Ao executivo, deixamos uma pergunta: “E agora Luiz Inácio?”. A bola foi devolvida, a resposta foi dada, a mensagem enviada. Como Vossa Excelência pretende gastar estes tantos dólares economizados (às custas de nosso não-desenvolvimento) que, esperamos, estejam guardados no Tesouro?

Paulo Vogel



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